PADRE ERNESTO ASCIONE: “A parte melhor”
Jesus, peregrino entre os peregrinos, está se dirigindo, junto com o grupo de Seus discípulos, para a meta ideal de Sua viagem: Jerusalém. Lucas dedica a esta viagem bem 10 capítulos de seu Evangelho, do 9º ao 19º. Na família de Marta e Maria, Jesus recebe aquele acolhimento, que lhe foi negado pelos samaritanos no início de Sua viagem. Ao longo desta viagem, continua a formar os Seus discípulos. Neste episódio, Lucas trata um tema que lhe é particularmente predileto: a escuta da Palavra de Deus. Enquanto Marta fica ocupada nos afazeres domésticos, de dona de casa, Maria, ao invés, como discípula, senta-se aos pés do Mestre.
Marta representa o fazer operoso; Maria, o orar contemplativo. Maria inaugura uma atitude profética – novidade absoluta, revolucionária para as mulheres daquele tempo. A lei mosaica proibia, de fato, às mulheres frequentar o Templo, estudar as Divinas Escrituras e poder sentar-se aos pés de um mestre, como discípula, atenta ao seu ensino. Neste episódio, Lucas põe em relevo as duas atitudes que devem caracterizar a vida cristã: a ação, que, para se tornar “diakonia” –um serviço amoroso e competente a favor do próximo–, deve ser sustentada pela contemplação, pois sem ela a ação torna-se desgastante e árida.
Parece ver a cena: uma mulher atarefada e, a outra, encantada pela presença do Mestre em seu lar! Marta, pela ausência da irmã nos afazeres domésticos, explode num protesto, que parece ser até uma crítica velada a Jesus, uma correção ao comportamento do Mestre! “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha neste serviço? Manda que ela venha me ajudar!”. Mas, Jesus, com grande calma, responde: “Marta, Marta! –esse nome repetido exprime afeto– Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a parte melhor, que não lhe será tirada!”.
O Evangelho atesta, em várias ocasiões, a grande estima que Jesus mostra pela vida ativa e, em geral, pela atividade laboral. O próprio episódio de hoje o atesta: Jesus se dirige, com muito respeito e carinho, à interpelação de Marta. A única coisa, deveras necessária, que merece ser priorizada em nossa vida –acentua Jesus– é escutar a Palavra, que, naquele momento, estava até presencialmente presente, naquele lar, na própria pessoa de Jesus. Tudo passa –diz Jesus– só fica o que é eterno: só a Palavra de Deus é eterna, pois ela dá um sentido verdadeiro e profundo ao nosso viver e morrer. Colocar Deus, em primeiro lugar, em nosso itinerário terreno é o segredo para tornar o passageiro eterno.
Sem Deus, de fato, a ação torna-se agitação; a vida perde o seu sabor e o trabalho o seu valor. Sem a oração, todo o fazer reduz-se a um ativismo vazio. E, quem poderá dar um sentido profundo à nossa pobre vida humana, senão Jesus Cristo? Como Maria, “escolheu a parte melhor, que não lhe será tirada”, assim, ao fazer tudo “para a maior glória de Deus” transformamos o que é passageiro em méritos de vida eterna.
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(*Padre Ernesto Ascione é missionário comboniano.)
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