Trabalhadores temem pelo futuro da exploração de petróleo no norte capixaba
Por
Claudio Caterinque
Repórter
Com as incertezas que pairam sobre a empresa Seacrest, que adquiriu os ativos da Petrobras no norte do Estado em 2023, os trabalhadores do setor estão temerosos com o futuro da exploração de petróleo na região. Pelo menos é o que demonstra o dirigente do Sindicato dos Petroleiros do Espírito Santo (Sindipetro-ES), Reinaldo Alves. Em entrevista à Rede TC de Comunicações, ele explica que a empresa, que está em recuperação judicial, acumula dívidas bilionárias e já mandou embora entre 10% e 15% dos trabalhadores, passando de um efetivo de cerca de 320 funcionários para aproximadamente 280.
Ele detalha que a empresa venceu o leilão, adquiriu financiamento com bancos, incluindo instituições públicas brasileiras, mas não pagou, fazendo com que os credores tomassem o controle contratando uma empresa para administrar a Seacrest. Além disso, ele afirma que a companhia também não conseguiu quitar totalmente a compra dos ativos com a Petrobras.
Resumidamente, de uma forma mais simples, ele explica a operação: “É como se a pessoa comprasse um carro, pegasse um financiamento no banco para quitar o veículo com a concessionária, mas não pagasse o banco. E o que a instituição faz? Vai lá e toma o bem da pessoa”.

Foto: Divulgação
Reinaldo afirma que somente essas dívidas da Seacrest estão no mesmo patamar do valor da venda dos ativos no leilão da Petrobras, em cerca de 550 milhões de dólares, ou próximo de R$ 3 bilhões.
Além disso, segundo ele, a empresa também precisa liquidar o valor de 120 milhões de dólares com acionistas. Uma audiência de liquidação da companhia determinada pela Suprema Corte das Bermudas, na América Central –onde a empresa possui endereço–, que aconteceria no início do ano, foi remarcada para o dia 8 de agosto. De acordo com Reinaldo Alves, os acionistas detentores de títulos seniores não garantidos –dívidas emitidas por empresas que não são garantidas por ativos específicos–, não têm nenhuma segurança de que serão ressarcidos.
“Esses comunicados [emitidos pela empresa ao mercado] são para os investidores, mesmo brasileiros, mas que investiram lá nas Bermudas. Eles [a empresa Seacrest] estão em processo de liquidação e provavelmente quem investiu, perdeu o dinheiro. Provavelmente vai ter uma decretação de falência e de execução para acabar com a empresa nas Bermudas”.
Bancos poderão oferecer ativos no mercado, afirma Sindipetro
Uma das preocupações do Sindipetro-ES com o futuro das explorações de petróleo no norte do Estado está relacionada com a possibilidade que os bancos têm de oferecer esses ativos no mercado. Segundo Reinaldo Alves, a atividade da empresa não está paralisada e tem tendência de aumento na produção.
No entanto, essas incertezas sobre como serão negociados esses ativos, fracionados ou para uma única companhia, preocupam o setor em relação à precarização das condições de trabalho. De acordo com Reinaldo, por enquanto os funcionários que estão trabalhando recebem os salários em dia e o Sindipetro está em vias de fechar um acordo coletivo dos trabalhadores.

Foto: Divulgação
“Em resumo seria isso: a empresa Seacrest, que opera os campos no norte capixaba, está sendo administrada por uma empresa contratada pelos bancos credores. O controle não volta mais para a Seacrest. Esse é o nosso medo e até agora a gente não teve essa resposta. Provavelmente, os bancos, assim que diminuírem as dívidas, vão vender os campos para uma empresa verdadeiramente operadora de campo de petróleo”.
De acordo com Reinaldo, a situação envolvendo a empresa atingiu outros 700 postos de trabalho em seis meses. Os trabalhadores são de empresas prestadoras de serviços que tiveram contratos encerrados, como, por exemplo, de manutenção. No entanto, o Sindipetro acredita que, com a possibilidade de o controle ser feito por empresa brasileira, a atividade não seja tão prejudicada na região. “Que garanta ao menos os empregos dos trabalhadores da indústria do petróleo no norte do Estado”.
Mudança no controle da companhia
Em um comunicado que aparece na página principal da Seacrest na internet, a empresa informa que, “em 21 de fevereiro de 2025, por ordem da Suprema Corte das Bermudas (a Ordem de Nomeação), Mike Penrose da EY Bermuda Ltd., 3 Bermudiana Road, Hamilton, HM08, Bermudas e Igal Wizman da EY Bahamas Ltd., Caves Corporate Centre, West Bay Street & Blake Road, Nassau N-3231, Bahamas, foram nomeados como Liquidatários Provisórios Conjuntos (os JPLs) da Seacrest Petroleo Bermuda Limited (a Empresa)”.
Segundo a companhia, “de acordo com a Ordem de Nomeação, os JPLs são agora responsáveis pelos negócios e assuntos da Empresa, incluindo a preservação e proteção dos ativos da Empresa. Os JPLs atuam apenas como agentes da Empresa e sem responsabilidade pessoal”.
SEACREST
A Reportagem procurou os canais de comunicação para obter mais esclarecimentos da Seacrest sobre a atual situação. No entanto, a empresa que fazia a assessoria de comunicação, sediada no Rio de Janeiro, afirmou que não está mais atendendo a Seacrest.
Nos comunicados oficiais feitos ao mercado, que é uma obrigação de empresa com negociação em bolsa de valor –as ações foram negociadas na bolsa de Oslo, na Noruega—, constam dois endereços, sendo um nas Bahamas e outro nas Bermudas, dois paraísos fiscais localizados na América Central.
Desta forma, o espaço segue à disposição para que a empresa possa se manifestar.
Foto do destaque: Divulgação
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